domingo, 26 de setembro de 2010

Resenha do livro


Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma narrativa em primeira pessoa, cujo narrador é o defunto-autor, ou seja, é um morto que narra a história com total liberdade. Essa condição do narrador permite-lhe analisar com ironia o comportamento humano e avaliar com auto-ironia suas próprias atitudes. Livre e descompromissado com a sociedade, Brás Cubas revela e analisa não só os motivos secretos de seu próprio comportamento como também põe a nu as hipocrisias e vaidades das pessoas com quem conviveu. Ao longo da narração mostra vários episódios: sua paixão juvenil por Marcela, que amou durante quinze meses e onze contos de réis; sua amizade com o filósofo maluco Quincas Borba; os planos frustrados de seu pai em querer encaminhá-lo para a política; seus amores clandestinos com Virgília, esposa de seu amigo Lobo Neves. A ordem da narrativa não é linear, pois se desnvolve deacordo com os pensamentos de Brás Cubas. Suas reflexões apresentam-se carregadas de pessimismo e desencanto diante da vida, questiona os valores sociais e morais como máscaras para ocultar interesses egoístas.Irônico e provocador ele convoca o leitor a fazer seus próprios julgamentos sobre os fatos narrados. Brás Cubas expõe cínicamente os valores e comportamentos de seus familiares, de seus amigos e das mulheres com as quais se relacionou, traçando um quadro social e psicológico em linguagem bem humorada, em que a vaidade e a hipocrisia das relações humanas são uma constante. Julga a si prório como um perdedor, como alguém incapaz de grandes realizações, como emplasto que gostaria de ter descoberto para aliviar as dores da humanidade. O balanço final de Brás Cubas sobre a existência é de pessimismo, pois depois de uma vida que resulta em fatos negativos, em fracassos, ele afirma ter tido um pequeno saldo; que foi o de não possuir filhos e não ter transmitido a nenhuma criatura o legado da miséria.

Personagens

Brás Cubas - narrador - morto aos 64 anos - “ainda próspero e rijo”, fidalgo. Peralta quando criança, mimado pelo pai, irresponsável quando adolescente, tornou-se um homem egoísta a ponto de discutir com a irmã pela prataria que fiou de herança do pai e tornar-se amante de seu amigo, Lobo Neves, se bem que nesse romance não se pode dizer propriamente que alguém é amigo de outro.

Virgília - filha do comendador Dutra, segundo o pai de Brás, Bento Cubas A “Ursa Maior” amante de Brás Cubas casa-se com Lobo Neves por interesse. Mulher bonita, ambiciosa, que parece gostar sinceramente de Brás Cubas, mas jamais se revela disposta a romper com sua posição social ou dispensar o conforto e o reconhecimento da sociedade. 


Damião Lobo Neves 
- casado com Virgília, homem frio e calculista. Marido de Virgília, homem sério, integrado ao sistema, ambicioso, mas muito mais supersticioso, pois recusou nomeação pra presidente de uma província só porque a referida nomeação aconteceu num dia 13.

Quincas Borba - menino terrível que dava tombos no paciente professor Barata, colega de escola de Brás que o encontrará mais tarde mendigo que rouba-lhe um relógio mas retorna-o ao colega após receber uma herança. amigo de infância do protagonista. Desde criança era de um temperamento ativo, exaltado, querendo ser sempre superior nas brincadeiras. Cubas diz que ele é impressionante quando brinca de imperador. Quando adulto, passa pelo estado de mendigo, evoluindo depois para filósofo e desenvolve um sistema filosófico, denominado Humanitismo, que pretende superar e suprimir todos os demais sistemas até tornar-se uma religião.

Marcela – Grande paixão da juventude de Brás, uma prostituta de elite, cujo amor por Brás duraria quinze meses e onze contos de réis. Mulher sensual, mentirosa, amiga de rapazes e de dinheiro. Ganha muitas jóias do adolescente Brás Cubas. Contrai varíola e fica feia
, com a pela grassa como uma lixa.

Sabina - irmã do narrador e que, como ele, valoriza mais o interesse pessoa e a posição social do que amizade ou laços de parentesco.

Cotrin - casado com Sabina, é interesse, traficante de escravos e cruel com eles, mandando-os castigar até correr sangue.

Eugênia - Filha de Eusébia e Vilaça, menina bela embora coxa. Era moça séria, tranqüila, dotada de olhos negros e olhar direito e franco. Tinha “idéias claras, maneiras chãs, certa graça natural, um ar de senhora, e não sei se alguma outra cousa; sim, a boca exatamente a boca da mãe".

Nhá Loló - moça simplória, tinha dotes de soprano - morre de febre amarela.

Tempo


Apesar de existir uma clara marcação temporal na narrativa , dando impressão que o tempo é cronológico (1805-1869), o romance cuida das memórias de um defunto autor. A narrativa principia pelo fim, ou seja, pela sua morte, depois retoma o curso normal, ou seja, nascimento, adolescência, maturidade e velhice. Assim, em todo o livro o tempo é psicológico.

Espaço


Não há uma preocupação do autor em descrever detalhadamente o espaços percorridos pela narrativa. A história passa-se no Rio de Janeiro. Nesta época a cidade era cercada de chácaras, abrigando além dos donos, numerosos escravos. O perfume dos jardins bem cuidados confundiam-se com o cheiro de mofo das salas enormes que só se abriam para as visitas e festas. As vozes dos negros alternavam-se com a dos brancos. Não faltavam os saraus , jantares de aniversário com a prataria a brilhar, compoteiras de cristal e muitos discursos de cansada retórica. A família Cubas morava na chácara do Catumbi. Filho de família rica e apegada às tradições, seu ambiente era o de elite escravocrata, autoritária e tradicionalista. Ambiente onde prevaleciam o ócio e o sadismo.
Em Memóricas Postumas de Brás Cubas o espaço aparece como uma projeção da personalidade do defunto-autor. A narrativa é feita após sua morte, de maneira que o espaço real perdeu a importância que tinha. Após ter testemunhado todos os séculos (passados e futuros), ele percebeu sua fragilidade e a transitoriedade do mundo . Um mundo que representa de maneira alegórica, fantástica para dar vida ao testemunho de sua vida burguesa e inútil.

Linguagem

A linguagem machadiana, além dos recursos apontados, surpreende pelo emprego de metáforas, comparações impactantes pela originalidade, pelo poder de sintetizar situações em pouquíssimas palavras, criando imagens brilhantes . Predominam as metáforas mórbidas . O emprego deste recurso estilístico decorre do autor ser um defunto ou de ter sido hipocondríaco em vida.

Trechos do livro


“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.” Dedicatória
 “Creiam-me, o menos mal é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim.” Pág 07
- “Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar.” Pág 78
“Matamos o tempo, o tempo nos enterra.” Pág 115
“Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.” Pág 125
- “Não tive filhos não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” Pág 140

Biografia de Machado de Assis


http://www.youtube.com/watch?v=jbZy49mc5Ks


1839 (21 de julho) - Nasce Joaquim Maria Machado de Assis. Filho de um operário mestiço de negro e português, Francisco José de Assis, e de D. Maria Leopoldina Machado de Assis. Perde a mãe muito cedo e é criado pela madrasta Maria Inês.
1851 - Morre seu pai. D. Maria Inês se emprega como doceira num colégio, e Machado de Assis, torna-se vendedor de doces.
1855 (12 de janeiro) - Publica seu primeiro trabalho:o poema "Ela" na revista Marmota Fluminense.
1856 - Consegue emprego como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional.
1859 - E ra revisor e colaborava com o jornal Correio Mercantil 
1860 - A convite de Quintino Bocaiúva, passa a fazer parte da redação do jornal Diário do Rio de Janeiro.
1861 - primeiro livro impresso: Queda que as mulheres têm para os tolos, onde aparece como tradutor.
1862 - era censor teatral, cargo que não rendia qualquer remuneração, mas o possibilitava a ter acesso livre aos teatros.

1864 - Publica seu primeiro livro de poesias, sob o título de Crisálidas.
1867 - é nomeado ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial.
1869 (12 de novembro) - casa-se com Carolina Augusta Xavier de Novais. 
1881 -
com a posse como ministro interino da Agricultura, Comércio Obras Públicas do poeta Pedro Luís Pereira de Sousa, Machado assume o cargo de oficial de gabinete. 
1897 - foi eleito presidente da Academia Brasileira de Letras
1908 (29 de novembro) -   Falece no Rio de Janeiro